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Blog da Mari Albertini



Olha como sou grandona



Escrito por mari.albertini às 10h53
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Viagens de Gulliver

Hoje saí cedinho de casa para ir ao pneumologista, fazer um acompanhamento de um possível "derrame pleural" (pois é...), conseqüência da cirurgia que fiz. A médica disse que não há motivo para preocupação, pois o próprio organismo já deve ter eliminado esse "ar" do pulmão, pois era um derrame bem pequeno. Entretanto, ela pediu uns exames de raios-X (tive de ficar em inúmeras posições bizarras: de costas, com a mão na cabeça; de lado, com as mãos nas orelhas; e a pior delas, o famigerado "decúbito lateral", ou seja: deitada de lado na maca, mãos na cabeça e com o tórax em cima de duas camadas de isopor, bunda arrebitada, no mais perfeito estilo Playboy... ridículo, mas fingi que estava achando normal).

Bem, quando cheguei ao hospital para fazer esses tais raios-X, fui "recepcionada" por uma mocinha, baixinha, olhar amigável. Era a técnica em radiologia, que me saudou com um estranho "Olá, grandona!!". Achei que ela queria me deixar mais à vontade e respondi à saudação com um "Bom dia". Entretanto, qual não foi a minha surpresa quando percebi que ela realmente iria levar a sério o fato de eu ter um metro e setenta (escrevi por extenso para parecer maior, afinal, 1,70m não é tanto assim, é??!!!).

Enquanto eu estava "de costas, mãos na cabeça", ela resmungava "Nossa, mas você é realmente grandona, olha só que comprida...", "grandona mesmo". Quando fiquei no decúbito lateral foi ainda mais estranho, ela falava "É, Mariana, eu tenho que acertar direitinho a posição da chapa, pois como você é grandona, o seu pulmão deve ser grandão também, e pode cortar na foto... Seus pais são altos? Aquela que estava com você na sala de espera é sua mãe?? Como pode você ser tão alta, se ela é tão baixinha? Nossa..."

... Eu pensava comigo "Falou, minha filha, faz logo o serviço e área!"... mas é claro que exteriorizei algo bem diferente, com uma voz de sonsa-subserviente: "É, meu pai é que é o alto da família, minha mãe é baixinha"... acabei me odiando naquele momento... Ela não se dava por vencida, e dizia "Ah, então você puxou seu pai, né? Ele tem o quê? Dois metros? E você? Joga basquete? Faz algum esporte???"... ai, ai, ai, nessa hora eu já me imaginava com uma careta horrorosa, mostrando a língua e fazendo bruuuuuuugh, aarrrrggggggggg, schhhhhhiu, mas apenas esbocei um sorriso amarelo, cheio de ternura...

Acabados os exames, fui embora, afinal, tinha de seguir minha vida de gigante, destruir prédios com os pés, amassetar flores nos jardins e quebrar pontes com o meu tamanho, e, como ninguém é de ferro, tinha de ligar para o King Kong e para o Hulk, para ver se eles queriam marcar um happy hour... ou poderia tentar um encontro com Gulliver... quem sabe, combinar uma viagem...

Ai, ai, de volta ao meu castelo, me senti a menor das criaturas... mas por um breve momento... tudo já voltou ao normal.



Escrito por mari.albertini às 10h46
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Diferenças indiferentes

Hoje estava tomando café-da-manhã e meu olhar esbarrou na embalagem de Toddy que estava bem na minha frente. Eu não gosto de leite e nem tão pouco de leite com Toddy, mas o incrível é que eu nunca havia notado o Toddy na minha vida. Na verdade, desde que casei tenho de conviver com o Toddy, mas até hoje pela manhã ele nunca havia passado de mais um item da lista de supermercado.

Hoje, ao olhar para aquela embalagem colorida, fiquei perturbada. Como o Toddy pôde entrar assim na minha vida sem pedir licença?? Como um produto que tem como slogan "Toddy, o chocolate que liga!" (liga o quê?? fala sério!!) teve a ousadia de vir morar bem em cima da minha mesa?

Desde pequena, nutro esse nojo por leite, principalmente quando vem misturado com pózinhos e coisinhas do gênero. Nojento. Mesmo assim, sempre fui obrigada a conviver com amantes do leite; pra falar a verdade, há 25 anos convivo com um dos maiores lactomaníacos da história: meu irmão. E sobre uma coisa ele sempre foi categórico: Nescau é muito melhor que Toddy. Não tem comparação. É certo que houve um período em que ele se apaixonou por um tal de Ovomaltine, que continha "cristais de chocolate puro" (sei...), que ficavam no fundinho do copo e dava até pra comê-los de colher (eca!!), mas breve se foi essa "paixonite aguda" e ele logo se rendeu ao seu primeiro amor: o querido e tradicional Nescau.

Pois é, sempre considerei verdadeira e irrefutável a supremacia "nescaliana" , mesmo tendo ojeriza das pessoas que se embebedam com 200 ml de leite logo tão cedo... Eu nunca tive dúvidas, o Nescau era soberano no ramo dos achocolatados; afinal, minha mãe comprava, meu pai aprovava, meu irmão adorava... Era como se ele fosse um achocolatado de direita, tradicional, confiável, um porto-seguro para o café-da-manhã de minha família... eu não gostava dele, mas amava saber que ele estava sempre lá, em cima da mesa, esperando por meu irmãozinho, trazendo mais sabor e aquela energia que dá gosto.

Mas isso mudou... o Nescau não entra mais na minha casa e eu tenho saudades dele. Agora, em seu lugar está ele, o rebelde, o esquerdista, o intruso: Toddy. O que ele está fazendo aqui? Eu nunca gostei dele, nem do Ovomaltine, nem do Brow Cow, nem do Mucky... nãããããããooo!!! Cadê o Nescau??

De repente, percebi o quão preconceituosa posso ser. Simplesmente, sempre refutei qualquer tentativa de mudança de hábitos, travei batalhas dentro de mim contra qualquer coisa que contrariasse o que eu julgava ser verdade, ser certo, ser "digno". Tomar Nescau era um caso de dignidade, assim como torcer pelo Palmeiras e não posar nua... ahahahaahahahah, quanta boçalidade! Será que isso é um pouco nazista???!?

Lembro quando estava na escola e ia estudar na casa de amiguinhos; na hora do lanche eu sempre estranhava aquela marca diferente de bolacha, a margarina sem sal ou o café-com-leite. Recordo que pensava: "Como assim?? Café-com-leite?? Criança não toma essas coisas!! O que esses pais estão fazendo com seus filhos?? Vamos denunciar!!!!". Achava o fim tudo o que era diferente da minha casa. O feijão tinha de ficar em cima do arroz, e não embaixo tornando a comida uma lavagem... Será que é tão difícil assim seguir regras básicas de alimentação??? Mesmo quando ia na casa da minha avó, não entendia o porquê de se tomar café no copo de vidro. Meu Deus, mas pra quê, então, existem as "xicrinhas" de café?? Coitadas, são inúteis? Por que ignorá-las?? Sem falar que nelas cabem a medida exata de café que se deve tomar, já no copo de vidro não dá pra mensurar direito, ou seja, é totalmente insano tomar café no copo de vidro. Mas era minha avó que fazia isso. Como salvá-la de tal equívoco?? Mas era minha avó... resolvi deixar pra lá.

O caso é que, de vez em quando, sou assombrada por esses dilemas, essas dúvidas cruciais da minha existência, e isso me faz pensar.

Hoje, ao ficar encarando o Toddy, acho que percebi o que é amar. Amar é você virar as costas para os detalhes. Bem se sabe que quando não estamos apaixonados essas coisas podem ser bem irritantes. Mas como pôde o Toddy entrar assim na minha vida sem pedir licença??? Ora, ele não veio sozinho, alguém o trouxe. E eu nem liguei.

Aliás, quando amamos somos capazes de agüentar coisas bem mais bizarras do que um simples e inofensivo achocolatado. Somos capazes de nos acostumar com hábitos e idéias bem diferentes daquelas que nossos pais nos ensinaram. Isso é bom?? Acho que é necessário. Necessário para a civilização, para a convivência, para a sociedade.

Se é bom para mim, dentro da minha casa... isso é uma outra questão. Cada um deve saber e escolher o que é melhor para si. Isso é um direito. Mas é mister que se respeite as opiniões, os gostos, os hábitos e as pessoas... diferentes. Isso é amor, isso é amar.

 



Escrito por mari.albertini às 20h32
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