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Blog da Mari Albertini Can-can em Cancun... um idílio olímpico. Estou de férias. Vou para Cancún. É claro que a primeira coisa que me passou à cabeça quando vislumbrei a hipótese de banhar meu corpitcho branquelo (sim, os branquelos também viajam!) nas águas azuis, translúcidas do Caribe, foi: "Vou fazer um can-can em Cancun". Pra quem não sabe, can-can é uma meia estrela: você faz toda a ginga como se fosse dar uma estrela, mas aí você pára no meio, bate uma perna na outra (no ar, obviamente), volta, se sente a Dayanne dos Santos, mas nem tanto. Bem, pelo menos na minha infância era assim conhecida essa linda acrobacia. E não é fácil! São necessários coragem, entrega e um pouco de disciplina e treinamento para um can-can perfeito. É claro que quase quebrei a perna, os punhos, os dedos e a cabeça treinando esse can-can para arrasar na minha primeira apresentação, na garagem do prédio onde morava, em Santos, sem platéia. Bem, hoje, um dia antes da viagem, fui ao banco onde tenho conta trocar alguns (poucos, infelizmente) reais por dólares. Confesso que senti um prenúncio de prazer ao me direcionar à Praça do Patriarca, entre amostras grátis de maquiagem, mágica com copinhos e lojas de atacadão. Enfim, eu iria ter verdinhas em mãos (e levá-las, agarradas ao corpo, de volta pra casa, de metrô. Um luxo.). Andava esnobemente pelo Centro, quando minha alma deslocou-se de meu corpo, voando um pouco a minha frente, pelo meio da rua São Bento, inalando poluição e canseira. Mas livre, ela cantarolava: "Tra-la-la-la-la, Brizo-la", e saltitava feliz como uma criança levando sua lancheira. Por fim, com os dólares na mão (quer dizer, bem lá no fundo da minha micro-bolsa), e já com minha alma de volta ao corpo, fiz planos de não gastar nada nessa viagem. Tomar um belo café-da-manhã, um almoço razoável e jejum no jantar (quem sabe perco aquela barriguinha); aí chego em São Paulo, troco os dólares por real e pago meu condomínio na data certa. Depois penso nisso, por hora estou radiante com a idéia dos can-cans... em Cancún.
Escrito por mari.albertini às 18h34 [ ] [ envie esta mensagem ] Estação Chácara Klabin Sexta-feira. Sete e vinte da noite. Estação Barra Funda do metrô de São Paulo. Um metroviário fala ao microfone pedindo assinaturas para um abaixo-assinado contra a privatização do metrô. Parei. Assinei. Por quê? Há alguns anos, quando comecei a morar em São Paulo, eu costumava chegar atrasada aos meus compromissos. A cada esquina, um assédio: mendigos, pedintes, vendedores, entregadores de panfletos, aflitos, bêbados. Eu parava. Eu ouvia. Eu me entristecia. Eu chorava por dentro. Eu me angustiava. Eu dava um real. Eu tentava. Eu parava. Eu me atrasava. Há alguns meses, tomei uma decisão radical. Não ia parar mais. Iria fingir, invariavelmente, que não tinha ouvido o clamor. Sorte de quem não pedisse esmolas para mim; feliz aquele que não me entregasse nenhum panfleto, nenhuma propaganda de apartamentos e muito menos "brindes-surpresa". Eu não suportava mais. Acatei o conselho que ouvi da voz que fala nos vagões do metrô: "Não dê esmolas e não incentive o comércio ilegal dentro dos trens. Ofereça sua doação a órgãos de sua confiança.". É verdade. Não adianta, não adiantava, nunca adiantou. Chega. Entretanto, nesta última sexta-feira, eu parei. Tenho afeição pelos metroviários. São funcionários públicos extremamente eficientes. Trabalhadores, disciplinados, sempre prontos a ajudar. Quando estou no metrô, me sinto em outro mundo. Não em outro país... em outro mundo. Um mundo utópico, ideal: todos são tratados da mesma maneira. Sento-me ao lado de uma menina bem-tratada, que leva uma miniatura de Givenchy em sua bolsa Victor Hugo. Ela pega o perfume, ela passa... no metrô. À minha frente, uma senhora com a sacola rasgada passa para um saquinho de supermercado seu RG e cinco reais, além de seus óculos e uma cartela de remédios. Olho para o lado: um corintiano, um menino numa cadeira de rodas, um grupo de góticos e duas senhoras japonesas. Na porta do vagão, um vendedor de colchas. Eu amo isso. Eu amo o metrô de São Paulo. Sexta-feira. Sete e vinte da noite. Eu parei. Eu assinei. Por quê? Talvez também porque eu tenha vivido, no metrô, um dos momentos mais emocionantes deste ano para mim. Dia nove de maio. Eu estava no vagão entre a Estação Brigadeiro e a Estação Paraíso. Uma bela voz anuncia: "Acaba de ser inaugurada a Estação Chácara Klabin". Eu me emocionei. Muito. Foi um momento emocionante. Um momento. Profundamente emocionante. Não sei se é preciso haver um porquê, um motivo lógico, embora haja muitos porquês sociais, afinal, é uma extensão da linha 2, verde, é um benefício enorme para os trabalhadores, para a sociedade. Mas aquele momento foi mais do que tudo isso. Foi solenemente emocionante. Olhei para os lados e pensei "Bom, pessoal, vamos bater palmas?? Ninguém vai chorar? Vamos nos cumprimentar?"... Ninguém fez nada, eu também não fiz; de certo sequer esboçei um ar de felicidade, mas minha vontade era chorar, chorar alto de emoção. Que bonito, que lindo... que maravilha. Fiquei com aquela sensação de alegria por todo o dia. Sensação de vitória, de satisfação. Na verdade, naquele momento eu me senti cidadã. Percebi que estou viva. Senti orgulho. Era como se o metrô fosse meu lar. Meu mundo. Era como se a Chácara Klabin fosse um paraíso recém-inaugurado. Não é todo dia que se recebe uma notícia como essa. Eu amo o metrô de São Paulo. Eu parei. Eu assinei. Eu amo o meu mundo.
Escrito por mari.albertini às 17h53 [ ] [ envie esta mensagem ] O médico e o monstro São Paulo, bairro do Paraíso. 9:00 horas da manhã. Chego ao endereço do consultório de um neurologista. Pego o elevador, subo até o segundo andar. Estou na sala de espera. De repente, a porta se abre e meu nome é anunciado. Um aperto de mãos. Sento-me de frente para o médico. -Pois não. Qual a sua queixa? -Tenho me sentido mal. Vira-e-mexe tenho a sensação de que vou desmaiar. -O que mais? -É basicamente isso, doutor. Posso estar no trabalho, em casa, no metrô, na rua. De repente, escurece tudo e tenho a nítida impressão de que vou desmaiar. Pausa de 3 segundos. Ele olha fixamente para mim. -O que mais? -Então, doutor. A minha queixa é essa. Gostaria de saber se isso é físico ou se pode ser stress. Pausa de 5 segundos. Ele move a cabeça ligeiramente para a esquerda, sorri, irônico. -O que é stress? -Ah, doutor. Bem... Começo a gaguejar (odeio sabatinas!). Ele repete, friamente. -O que é stress? -Bem, doutor, há menos de dois meses fui operada de uma gravidez ectópica. Pensei ter superado bem, na medida do possível, mas talvez esses sintomas de "quase-desmaio" sejam uma resposta do corpo ao medo que passei. Será? -O que mais? Pausa de 4 segundos. Não sei o que responder. Mais 2 segundos de pausa. -Estava com 4 semanas de gravidez e quando fui ao hosp... Ele me interrompe. -Impossível. -Como? -Impossível. Você estava com pelo menos dois meses de gestação. Arregalo os olhos. Cara de espanto. Ele imita minha expressão de assustada. Caçoa. -Nossa, doutor, meu ginecologista afirmou que eu estava com 4 semanas. Será que ele se enganou? Ele meneia a cabeça. -Ah, sim. Os médicos sempre se enganam. Aliás, acho que eles são um mal para a humanidade. Eu já estou acostumado a ouvir as pessoas falarem mal de médico... mas agora me defendo falando mal dos meus clientes. Idiotamente, dou um sorriso. -Eu admiro os médicos. Ele retruca. -Mas você não acabou de dizer que acha que seu médico se enganou? -Não, eu só... Ele me interrompe. -Sim, você acabou de falar isso. Em cinco minutos de conversa, você já falou mal de médico uma vez. Portanto, na minha estatística, você fala mal de médico. Sorrio, sem graça. Ele retoma. -Bem, o que mais? -Ah, doutor, acabei de me lembrar de que cheguei a desmaiar. Eu tive muita dor depois da operação e desmaiei de dor. Ele me olha como se eu estivesse mentindo. Deve me considerar lunática. -Alguém viu você desmaiar? -Minha mãe viu. Ele sorri, debochadamente. -O que mais? Rosno mentalmente. Minha vontade é voar no pescoço dele e despedaçá-lo. Ele continua. -O que mais? -Tive Síndrome do Pânico há 4 anos, mas os sintomas eram bem diferentes desses que estou tendo agora. Em nenhuma crise achei que pudesse desmaiar. -O que mais? -Bem, estou contando isso porque... o senhor acha que pode ser Síndrome do Pânico novamente? Parei com os remédios há mais de 1 ano. -Parou com os remédios? -Sim, parei. -Quem mandou? -Na verdade, eu parei com os remédios porque já me sentia bem e... Ele se altera. -Você não teve alta? -Não propriamente. Ele se exalta. -Azar o seu. Está pagando com o próprio corpo. Ele me fita como se eu fosse totalmente freak. -Eu sei que agi errado, doutor. Não pretendo fazer isso novamente, mas agora já foi e estou aqui porque quero saber o que está acontecendo comigo. -Você está dormindo bem? -Sim. -Você está engolindo bem? A comida volta pelo nariz? -Não. -Você está urinando normalmente? -Sim. -Tem tido febre? -Não. Estou me sentindo num exame médico de academia barato. Faço cara de paisagem. O médico bufa com toda a força. Olha pra mim, já entediado. -Posso afirmar que você não tem nenhuma queixa neurológica. Um pensamento começa a me perturbar: será que ele vai me deixar ir embora sem ao menos fazer o teste do martelinho no joelho? Será? Ele se ajeita na cadeira, já se preparando para finalizar a conversa. -Olhe, tenho 3 coisas para te falar: a primeira, você não tem nenhuma queixa neurológica; a segunda, procure um psiquiatra; a terceira, nunca desafie seu médico. -Mas... o senhor não vai me pedir nenhum exame? -Não. -Mas nem um eletro? -Não, mesmo porque "quase-desmaio" não existe. O médico se levanta de seu trono, ops!, de sua cadeira, estende a mão. -Não adianta você procurar, pois não vai achar remédio para medo nas farmácias. Estendo a mão também. -Ah, isso é. Tchau, doutor, obrigada. -Tchau, boa sorte. A porta se fecha atrás de mim. Acabo de sair do escritório de Lúcifer. Pego o elevador, desço até o térreo. Ganho a rua. Graças a Deus, vou caminhar pelas ruas do Paraíso.
Escrito por mari.albertini às 21h22 [ ] [ envie esta mensagem ] Sonhos perdidos Nunca consegui contar carneirinhos. Por que não consigo contá-los? Por que nunca consegui contá-los? Sou normal? Noite ápós noite visualizo um campo verdinho, com macieiras, numa tarde ensolarada... centralizada, ali está ela: a cerca. Eis que então surgem, lindos, pacíficos e branquinhos, os carneiros. Começam a saltar perfeitamente, em uma coreografia quase romântica, todos sob meu comando.... Meu comando?? Meu?? Comando?? Ai, meu Deus... Sem eu mandar, sem eu querer, sem que eu possa ter planejado isso, os carneiros enlouquecem. É certo que continuam a pular a cerca, mas agora dão piruetas, saltam de mãos dadas, mudam de cor, sorriem com ironia para mim, debocham... Viro de lado na cama, tento pensar em outras coisas... tarde demais. Eles não querem ir embora. O rebanho está descontrolado. Grito, berro, ordeno. Eles param, mas permanecem todos juntos, um grudado no outro... estão unidos, olhando para mim. Para mim. Para mim. Novamente se agitam. Crescem. Estão bulindo. Engordam. Estão apavorados. Querem fugir. A saída está em minhas mãos. Na verdade, em minha mente. Por que não consigo imaginar um caminho lindo e comprido para eles seguirem? Por que não crio um pastor para conduzi-los? Por que não pinto uma casa para que eu possa me esconder e virar a dona de tantas cabeças??? Por quê????? Não consigo, estou presa. Não quero ficar sozinha. Adormeço. Desperto, estou em casa, não me lembro dos carneirinhos. Onde estão eles? Conseguiram fugir sozinhos? Não importa, tenho de trabalhar.
Escrito por mari.albertini às 18h13 [ ] [ envie esta mensagem ] Olha como sou grandona Escrito por mari.albertini às 10h53 [ ] [ envie esta mensagem ] Viagens de Gulliver Hoje saí cedinho de casa para ir ao pneumologista, fazer um acompanhamento de um possível "derrame pleural" (pois é...), conseqüência da cirurgia que fiz. A médica disse que não há motivo para preocupação, pois o próprio organismo já deve ter eliminado esse "ar" do pulmão, pois era um derrame bem pequeno. Entretanto, ela pediu uns exames de raios-X (tive de ficar em inúmeras posições bizarras: de costas, com a mão na cabeça; de lado, com as mãos nas orelhas; e a pior delas, o famigerado "decúbito lateral", ou seja: deitada de lado na maca, mãos na cabeça e com o tórax em cima de duas camadas de isopor, bunda arrebitada, no mais perfeito estilo Playboy... ridículo, mas fingi que estava achando normal). Bem, quando cheguei ao hospital para fazer esses tais raios-X, fui "recepcionada" por uma mocinha, baixinha, olhar amigável. Era a técnica em radiologia, que me saudou com um estranho "Olá, grandona!!". Achei que ela queria me deixar mais à vontade e respondi à saudação com um "Bom dia". Entretanto, qual não foi a minha surpresa quando percebi que ela realmente iria levar a sério o fato de eu ter um metro e setenta (escrevi por extenso para parecer maior, afinal, 1,70m não é tanto assim, é??!!!). Enquanto eu estava "de costas, mãos na cabeça", ela resmungava "Nossa, mas você é realmente grandona, olha só que comprida...", "grandona mesmo". Quando fiquei no decúbito lateral foi ainda mais estranho, ela falava "É, Mariana, eu tenho que acertar direitinho a posição da chapa, pois como você é grandona, o seu pulmão deve ser grandão também, e pode cortar na foto... Seus pais são altos? Aquela que estava com você na sala de espera é sua mãe?? Como pode você ser tão alta, se ela é tão baixinha? Nossa..." ... Eu pensava comigo "Falou, minha filha, faz logo o serviço e área!"... mas é claro que exteriorizei algo bem diferente, com uma voz de sonsa-subserviente: "É, meu pai é que é o alto da família, minha mãe é baixinha"... acabei me odiando naquele momento... Ela não se dava por vencida, e dizia "Ah, então você puxou seu pai, né? Ele tem o quê? Dois metros? E você? Joga basquete? Faz algum esporte???"... ai, ai, ai, nessa hora eu já me imaginava com uma careta horrorosa, mostrando a língua e fazendo bruuuuuuugh, aarrrrggggggggg, schhhhhhiu, mas apenas esbocei um sorriso amarelo, cheio de ternura... Acabados os exames, fui embora, afinal, tinha de seguir minha vida de gigante, destruir prédios com os pés, amassetar flores nos jardins e quebrar pontes com o meu tamanho, e, como ninguém é de ferro, tinha de ligar para o King Kong e para o Hulk, para ver se eles queriam marcar um happy hour... ou poderia tentar um encontro com Gulliver... quem sabe, combinar uma viagem... Ai, ai, de volta ao meu castelo, me senti a menor das criaturas... mas por um breve momento... tudo já voltou ao normal. Escrito por mari.albertini às 10h46 [ ] [ envie esta mensagem ] Diferenças indiferentes Hoje estava tomando café-da-manhã e meu olhar esbarrou na embalagem de Toddy que estava bem na minha frente. Eu não gosto de leite e nem tão pouco de leite com Toddy, mas o incrível é que eu nunca havia notado o Toddy na minha vida. Na verdade, desde que casei tenho de conviver com o Toddy, mas até hoje pela manhã ele nunca havia passado de mais um item da lista de supermercado. Hoje, ao olhar para aquela embalagem colorida, fiquei perturbada. Como o Toddy pôde entrar assim na minha vida sem pedir licença?? Como um produto que tem como slogan "Toddy, o chocolate que liga!" (liga o quê?? fala sério!!) teve a ousadia de vir morar bem em cima da minha mesa? Desde pequena, nutro esse nojo por leite, principalmente quando vem misturado com pózinhos e coisinhas do gênero. Nojento. Mesmo assim, sempre fui obrigada a conviver com amantes do leite; pra falar a verdade, há 25 anos convivo com um dos maiores lactomaníacos da história: meu irmão. E sobre uma coisa ele sempre foi categórico: Nescau é muito melhor que Toddy. Não tem comparação. É certo que houve um período em que ele se apaixonou por um tal de Ovomaltine, que continha "cristais de chocolate puro" (sei...), que ficavam no fundinho do copo e dava até pra comê-los de colher (eca!!), mas breve se foi essa "paixonite aguda" e ele logo se rendeu ao seu primeiro amor: o querido e tradicional Nescau. Pois é, sempre considerei verdadeira e irrefutável a supremacia "nescaliana" , mesmo tendo ojeriza das pessoas que se embebedam com 200 ml de leite logo tão cedo... Eu nunca tive dúvidas, o Nescau era soberano no ramo dos achocolatados; afinal, minha mãe comprava, meu pai aprovava, meu irmão adorava... Era como se ele fosse um achocolatado de direita, tradicional, confiável, um porto-seguro para o café-da-manhã de minha família... eu não gostava dele, mas amava saber que ele estava sempre lá, em cima da mesa, esperando por meu irmãozinho, trazendo mais sabor e aquela energia que dá gosto. Mas isso mudou... o Nescau não entra mais na minha casa e eu tenho saudades dele. Agora, em seu lugar está ele, o rebelde, o esquerdista, o intruso: Toddy. O que ele está fazendo aqui? Eu nunca gostei dele, nem do Ovomaltine, nem do Brow Cow, nem do Mucky... nãããããããooo!!! Cadê o Nescau?? De repente, percebi o quão preconceituosa posso ser. Simplesmente, sempre refutei qualquer tentativa de mudança de hábitos, travei batalhas dentro de mim contra qualquer coisa que contrariasse o que eu julgava ser verdade, ser certo, ser "digno". Tomar Nescau era um caso de dignidade, assim como torcer pelo Palmeiras e não posar nua... ahahahaahahahah, quanta boçalidade! Será que isso é um pouco nazista???!? Lembro quando estava na escola e ia estudar na casa de amiguinhos; na hora do lanche eu sempre estranhava aquela marca diferente de bolacha, a margarina sem sal ou o café-com-leite. Recordo que pensava: "Como assim?? Café-com-leite?? Criança não toma essas coisas!! O que esses pais estão fazendo com seus filhos?? Vamos denunciar!!!!". Achava o fim tudo o que era diferente da minha casa. O feijão tinha de ficar em cima do arroz, e não embaixo tornando a comida uma lavagem... Será que é tão difícil assim seguir regras básicas de alimentação??? Mesmo quando ia na casa da minha avó, não entendia o porquê de se tomar café no copo de vidro. Meu Deus, mas pra quê, então, existem as "xicrinhas" de café?? Coitadas, são inúteis? Por que ignorá-las?? Sem falar que nelas cabem a medida exata de café que se deve tomar, já no copo de vidro não dá pra mensurar direito, ou seja, é totalmente insano tomar café no copo de vidro. Mas era minha avó que fazia isso. Como salvá-la de tal equívoco?? Mas era minha avó... resolvi deixar pra lá. O caso é que, de vez em quando, sou assombrada por esses dilemas, essas dúvidas cruciais da minha existência, e isso me faz pensar. Hoje, ao ficar encarando o Toddy, acho que percebi o que é amar. Amar é você virar as costas para os detalhes. Bem se sabe que quando não estamos apaixonados essas coisas podem ser bem irritantes. Mas como pôde o Toddy entrar assim na minha vida sem pedir licença??? Ora, ele não veio sozinho, alguém o trouxe. E eu nem liguei. Aliás, quando amamos somos capazes de agüentar coisas bem mais bizarras do que um simples e inofensivo achocolatado. Somos capazes de nos acostumar com hábitos e idéias bem diferentes daquelas que nossos pais nos ensinaram. Isso é bom?? Acho que é necessário. Necessário para a civilização, para a convivência, para a sociedade. Se é bom para mim, dentro da minha casa... isso é uma outra questão. Cada um deve saber e escolher o que é melhor para si. Isso é um direito. Mas é mister que se respeite as opiniões, os gostos, os hábitos e as pessoas... diferentes. Isso é amor, isso é amar.
Escrito por mari.albertini às 20h32 [ ] [ envie esta mensagem ] Minha mãe ![]() Escrito por mari.albertini às 21h40 [ ] [ envie esta mensagem ] Música de ninar Uma lágrima (Odair José) "Uma lágrima, eu deveria ser, somente pra dizer: 'Nasci, de um amor que em mim nasceu.' Uma lágrima, caída pelo rosto, sentida de bom gosto, e beijar quem a mim a vida deu. Se eu fosse uma lágrima eu não te deixaria, ficaria em teus olhos como poesia... E todo amor do mundo seria pra nós dois. Palavras de um carinho pra depois. Uma lágrima nasceu... Uma lágrima nasceu..." Escrito por mari.albertini às 15h51 [ ] [ envie esta mensagem ] Instinto Selvagem Há 15 dias descobri que estava grávida. Nesse mesmo dia descobri também que essa gravidez era ectópica, ou seja, fora do útero, na trompa, e não vingaria. Não, não estava planejando um bebê para agora (ou melhor, um filho, já que os filhos não ficam para sempre bebês), afinal, estou casada há apenas 6 meses... mas tenho certeza de que essa notícia só seria motivo de comemoração. Medo? Surpresa? No dia seguinte, fui submetida a uma cirurgia para retirada da trompa, e com ela... alguém... meu filho... Então, fui acometida por pensamentos irracionais, impulsivos, selvagens, instintivos. No hospital, antes da cirurgia, não queria ninguém tocando em mim, ninguém encostando na minha barriga, ninguém me dizendo que eu deveria ficar sem meu filho. A minha estada no hospital foi um constante esforço para controlar o meu impulso de fugir, sair correndo... sumir de tudo e de todos... e sermos só eu e ele. É engraçado, se eu estivesse com qualquer outro problema de saúde, tenho certeza de que meu instinto seria o de salvar a minha própria vida. Mas, naquele momento, não pensava em mim, mas sim, no meu filho. Não me importava o quanto iria doer, quantas injeções iria tomar, quantos remédios amargos, quantas aflições naquele hospital... mas se alguém pudesse ajudá-lo... ele, tão pequenininho, tão indefeso, tão meu... É claro que sabia que nada poderia ser feito por ele, afinal, lugar de feto é no útero, quentinho, protegido, confortável, mas isso eu não consegui fazer... O que ele fez de errado? Por que não nadou direitinho??? O que eu fiz de errado? O que minha trompa fez de errado??... Pois é, sei que não saberei essas respostas, pelo menos não como gostaria, com exatidão... sei também que não dá pra ficar encucando com isso... mas os meus impulsos, meus pensamentos, estavam totalmente descontrolados... justamente por isso julgo a mim mesma irracional. No entanto, enfermeiros, médicos, até mesmo meu marido (que deve me achar mimada) e minha mãe (que sabe que sou mimada) acharam que eu estava "reagindo bem"; suportei todas as injeções, todos os remédios, todos os ultra-sons, ressonâncias, boletins médicos, tudo... como se nada estivesse acontecendo. Logo eu, que estava ali, me sentindo como uma gata que dá à luz os seus filhotes na rua, totalmente vulneráveis, ela e os filhotes, a qualquer perigo. Sentia-me mesmo como uma gata de rua, que sabe que seus filhotes não são queridos pelos outros, a não ser por ela. Na verdade, percebi como é certeiro aquilo que todas as mães falam: "Não há nada igual ao amor de mãe". Como se uma luz divina me iluminasse, entendi o verdadeiro amor. Solidarizei-me com todas as mães do mundo, principalmente com aquelas que tiveram seus filhos roubados, seqüestrados, mortos... Tive pena de todas as fêmeas, de qualquer espécie, mas, de modo especial, de todas as fêmeas dos mamíferos: gatas, antas, cadelas, porcas, baleias... mas também das galinhas, andorinhas, tartarugas... NINGUÉM TEM O DIREITO DE TIRAR UM FILHO DE UMA MÃE, NINGUÉM. Tudo isso acontecia em frações de segundo, é como um entendimento e não um pensamento equilibrado. Não sei explicar. Entretanto, lá estava eu, quietinha, sem dar um pio, nem uma reclamaçãozinha sequer... um "amor de menina"... Mesmo quando ouvia dos médicos e enfermeiros que o caso era de "prenhez ectópica", não conseguia reagir, se sou um animal, um mamífero como qualquer outro, capaz de ficar "prenha", então deveria me deixar levar pelos meus impulsos... sair correndo, salvar meu filho de ser "retirado" de mim... Já que meu caso era de prenhez, queria levá-lo às últimas conseqüencias para ver se poderia, então, dali nove meses, ser "ordenhada"... Instinto de preservação da espécie. Pode crer, ele existe. Mas isso foi há alguns dias. Estou melhor. Cresci, na verdade, não sei se cresci, mas mudei. Quero ser mais civilizada, mais equilibrada. Na verdade, mesmo se eu não pudesse mais ter filhos, isso não seria um trauma tão profundo para mim (pelo menos não conscientemente), afinal, eu sempre tive um sonho: adoção, e espero um dia poder realizá-lo... Sempre achei que a emoção de adotar uma criança deve ser exatamente igual à emoção de gerá-la. Mas agradeço a Deus por ainda ter essa chance. Por estar viva. Mas acima de tudo, agradeço a Deus por ter, eu, uma mãe que cuida de mim com amor ilógico, irracional, instintivo e impulsivo, como todas as mães.
Escrito por mari.albertini às 15h27 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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